O DENV-3 e a explosão de casos de dengue no Brasil

O DENV-3 e a explosão de casos de dengue no Brasil

Por Daniela Barros – Portal Medscape

27 de fevereiro de 2025

O Brasil já registrou mais de 400 mil casos suspeitos de dengue em 2025, com 160 óbitos confirmados. Em São Paulo, o estado mais afetado — com mais de 230 mil casos suspeitos —, foi decretada emergência pela doença no dia 20 de fevereiro. Em meio à situação extrema, surge uma nova preocupação: o aumento da circulação do sorotipo 3 do vírus da dengue (DENV-3).

Enquanto os sorotipos DENV-1 e DENV-2 são endêmicos no país e seguem circulando ininterruptamente, a presença dos DENV-3 e DENV-4 é fruto de novas reintroduções, tendo sido a última registrada em 2008 na região de São José do Rio Preto (SP).

“O cenário da recirculação de um sorotipo viral que não estava presente há muitos anos [no país], encontrando uma parcela significativa da população sem imunidade prévia e, consequentemente, suscetível a adquirir uma infecção, suscita preocupações com o potencial impacto deste sorotipo na saúde pública”, explica a Dra. Melissa Falcão, infectologista da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA) e membro do Comitê Científico de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Essa preocupação é compartilhada pela Diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a Dra. Isabella Ballalai, que teme uma epidemia no país passível de sobrecarregar o sistema de saúde com o aumento de hospitalizações, especialmente em grupos de risco como crianças, idosos e pessoas com comorbidades.

De acordo com um trabalho publicado em janeiro no periódico Journal of Clinical Virology, [1] o sorotipo DENV-3 que agora circula no Brasil vem de uma linhagem diferente da que circulou no país nos anos 2000, e é proveniente da Flórida, nos EUA, e do Caribe. O estudo se baseou em amostras de 2023; desde então, o sorotipo se difundiu, e a região de São José do Rio Preto é hoje uma das mais afetadas no estado de São Paulo, com mais de 70 mil casos suspeitos de dengue desde o início de 2025.

No início do mês de fevereiro, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) publicou um alerta epidemiológico sobre o risco de surtos de dengue em razão do aumento da circulação do sorotipo DENV-3 no hemisfério Sul após um período prolongado sem a sua detecção. Nas quatro primeiras semanas epidemiológicas do ano, foram registrados 238 mil casos nas Américas, sendo o Brasil o responsável por 87% do total.

Todos os quatro sorotipos de dengue atualmente circulam no Brasil. O país vem enfrentando epidemias consecutivas da doença desde 2022, com predominância do sorotipo DENV-1, seguido pelo DENV-2. Com a disseminação do DENV-3, este sorotipo passou a ser o mais preocupante.

Estudos indicam que, após a segunda infecção por qualquer um dos sorotipos, há maiores chances de quadros graves. Embora isso não dependa da sequência dos sorotipos envolvidos, os DENV-2 e o DENV-3 são mais frequentemente associados a manifestações mais graves. Casos de infecção pelo sorotipo DENV-4 foram recentemente registrados em Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.

Proteção limitada

O Brasil é o primeiro país a distribuir vacinas de dengue pelo sistema público de saúde. A vacina QDenga está disponível para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Essa faixa etária é a que apresenta o maior risco de hospitalização por dengue, depois dos idosos — que, no entanto, não têm a vacinação liberada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Dra. Isabella comenta que a ampliação permanente da vacinação para outras faixas etárias ainda se encontra em discussão: “Diversos fatores estão sendo considerados, entre eles a epidemiologia da doença, o impacto em cada faixa etária, as recomendações de bula e a disponibilidade de vacinas para o Brasil”.

Aprovada pela Anvisa em março de 2023, a QDenga tem taxas de eficácia de 69,8% contra o sorotipo DENV-1; de 95,15% contra o sorotipo DENV- 2; e de 48,9% contra o sorotipo DENV-3.

Conforme alerta a Dra. Melissa, “a disponibilidade insuficiente desta vacina para abrangência nacional e uma menor proteção contra o sorotipo DENV-3, que é a grande preocupação em 2025, não serão suficientes para mudar a realidade da dengue no país em curto prazo”.

Atualmente, a Anvisa analisa o registro da vacina Butantan-DV, desenvolvida pelo Instituto Butantan. Em caso de aprovação, este será o primeiro imunizante do mundo de dose única contra o vírus da dengue. A vacina tetravalente mostrou 79,6% de eficácia geral para evitar casos sintomáticos e 89% de proteção contra formas graves da doença, com efeitos prolongados por até cinco anos.

Se tudo correr como esperado, o Instituto Butantan prevê a entrega de até 100 milhões de doses da Butantan-DV ao Ministério da Saúde nos próximos três anos, sendo 1 milhão já em 2025.

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