Medicina, Inteligência Artificial, chatGPT e o dilema do bonde

Medicina, Inteligência Artificial, chatGPT e o dilema do bonde

Em seu mais recente artigo, Renato Anghinah debate a inteligência artificial na medicina e o dilema do bonde, que envolve questões éticas e de tomadas de decisão.

A inteligência artificial (IA) ganhou um destaque fenomenal nas últimas semanas, só se fala nisto! E a medicina, onde fica, nesta história toda? O médico deixará de existir, seremos substituídos por robôs? Pera lá… Primeiramente, gostaria de alertar os desavisados, que assim como na nossa vida diária, já convivemos com a IA há anos e paulatinamente ela vai sendo incorporada às várias atividades humanas, incluindo a medicina.

Vou dar alguns exemplos corriqueiros que as pessoas nem sabem ou não percebem. Há mais de 3 décadas os sistemas de eletroencefalografia, antes analógicos, tornaram-se digitais e com isto bancos de dados cada vez maiores têm sido criados para automatizar algumas análises das ondas cerebrais.

O mesmo ocorre nas imagens de vários sistemas de tomografias e ressonâncias magnéticas, que ajudam em horas críticas, como a de um AVC (derrame cerebral) no pronto-socorro. Mostram aos médicos qual seria a melhor decisão de tratamento a ser tomada, sem falar de inúmeras plataformas de consulta online que auxiliam o médico sobre as possibilidades diagnósticas e seus tratamentos disponíveis.

O próprio chatGPT já está indo para a 4ª geração. A terceira, que está fazendo este barulho todo, nos encanta como brinquedo novo, mas ainda tem muito para melhorar!

Será que o médico está com os dias contados?

Se quiserem ter uma ideia geral sobre o tema, recomendo o livro 2041, do Kai-Fu Lee, ex-presidente da Google na China (o 41 de 2041 é, na verdade, o AI), que descreve em forma palatável como será esta tecnologia daqui 20 anos.

Vamos colocar o bonde na sala!

Quando se estuda ética, há um conhecido dilema do bonde, nele o condutor deve optar em salvar os passageiros ou matar uma pessoa que está no trilho (não há como salvar todos). Parece fácil! Suponhamos que a pessoa que esteja no trilho seja uma criança, ou um idoso, ou um assassino em série ou…o seu filho! Você tomaria a mesma decisão para estas diferentes questões?

Ora, um bonde? Um maquinista? Você deve estar achando que já passou da hora de eu me aposentar!

Suponhamos que ao invés de um condutor de um bonde, quem vai tomar estas decisões será um carro autônomo! Atropela ou não atropela? Mata os passageiros ou não mata os passageiros?

O mundialmente famoso e renomado MIT (Massachusetts Institute of Technology) fez esta pergunta e você, caro leitor, pode respondê-la através da WEB. Entre com as palavras Moral Machine MIT no seu buscador e você estará no jogo. Não se preocupe, pois, o questionário também está disponível em português.

Este é o bonde que a inteligência artificial colocou nas salas de nossas casas, e também nos consultórios e hospitais, o dilema da ética e da regulamentação da ferramenta deverá ganhar força a cada passo que a IA quiser avançar. As máquinas resolvem problemas e cada vez de modo melhor que os humanos, mas por trás de tudo estão informações passadas por nós, humanos, de forma consciente ou não, e tratadas por algoritmos matemáticos.

Nós, os imperfeitos humanos, como diria o saudoso Joao Gilberto, “sabemos que aqui dentro ainda bate um coração”, e a decisão final, espero, não será de um algoritmo. Ou será?

Fonte: Portal Futuro da Saúde 

Autor: Renato Anghinah

Vice-Presidente da Associação Brasileira de Traumatismo Crânio Encefálico (ABTCE) e Diretor Científico do Departamento de TCE da Academia Brasileira de Neurologia. Possui títulos de especialista em Neurologia, Neurofisiologia Clínica e de Fellow of American Academy of Neurology, além de ter a certificação como orientador da American Certification Brain Injury Society. É também Professor Livre Docente em Neurologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Professor Pleno de Pós-Graduação em Neurologia da FMUSP.

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